O protecionismo das Trump Tariffs e seus efeitos no Comércio Global
10/02/2025 às 17:46
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João Alfredo Lopes Nyegray*

O protecionismo pode ser definido como o conjunto de políticas governamentais que visam restringir ou controlar a entrada de bens e serviços estrangeiros em um país. Entre seus instrumentos mais comuns, destacam-se as tarifas de importação, barreiras não tarifárias (como cotas de importação e regulamentações técnicas), subsídios à produção doméstica e outras medidas que desestimulem a competição externa. Essas políticas são adotadas sob o argumento de proteger setores estratégicos, manter empregos ou assegurar a segurança nacional. No entanto, a literatura econômica aponta que tais medidas afetam a dinâmica da competição, podendo prejudicar tanto o bem-estar do consumidor quanto a competitividade de longo prazo das próprias indústrias locais.
Um argumento clássico em favor do protecionismo é a “proteção de indústrias nascentes”. Segundo Friedrich List (1856), novas indústrias podem precisar de proteção temporária contra concorrência estrangeira, até que se tornem competitivas. Embora esse argumento seja considerado legítimo em alguns casos, há na prática um risco de tais medidas se perpetuarem (captura regulatória) ou de o governo escolher setores “infantis” que jamais se tornam globalmente competitivos. Em determinados contextos (por exemplo, setores de defesa ou saúde), o protecionismo é defendido para evitar dependência excessiva de insumos estrangeiros.
Ao se aplicar tarifas de importação, o produto estrangeiro chega ao mercado doméstico a um preço maior. Consequentemente, o consumidor local paga mais caro, seja por produtos importados, seja pelo similar doméstico (que pode elevar seu preço em função da menor concorrência). Com o aumento de custos de entrada, muitas empresas estrangeiras reduzem ou interrompem suas exportações ao país protecionista, resultando em menor disponibilidade de marcas e modelos para o consumidor.
Pode ser exatamente esse o cenário do mercado interno dos Estados Unidos no futuro próximo. Sob a máxima “America First”, o mandatário passou a adotar medidas protecionistas direcionadas não apenas a rivais sistêmicos, mas também a países tradicionalmente aliados, como México e Canadá (membros do USMCA), o que indica uma guinada em relação à lógica liberal de comércio livre que caracterizou parte das políticas comerciais norte-americanas nas últimas décadas.
O Acordo Estados Unidos–México–Canadá (USMCA) foi originalmente celebrado para substituir o NAFTA, sendo caracterizado pela livre circulação de bens e pelo aprofundamento de cadeias produtivas regionais. As novas tarifas impostas, porém, podem fragilizar as cadeias de valor estabelecidas desde a década de 1990, elevando custos de produção compartilhada no setor automotivo, eletrônico e agroalimentar.
A imposição de tarifas contra México e Canadá gera tensão diplomática e comercial, com potenciais retaliações e disputas na Organização Mundial do Comércio (OMC). Dada a natureza integrada das cadeias de suprimento na América do Norte, medidas unilaterais podem surtir efeitos contrários ao pretendido — como a elevação de custos para consumidores e indústrias americanas que dependem de insumos importados.
Além das tensões comerciais com os parceiros regionais, o segundo governo Trump demonstra disposição de empregar tarifas contra outras economias relevantes, incluindo a União Europeia, o Japão e potências emergentes. Sob uma lógica de “barganha dura” (hard bargaining), o governo procura extrair concessões de aliados ao ameaçar romper acordos ou impor barreiras.
A implementação de medidas protecionistas unilaterais também estimula o reposicionamento de potências emergentes, como a China, na arena global. A diminuição da previsibilidade por parte dos EUA pode abrir espaços para que Pequim consolide parcerias alternativas, principalmente em regiões como a África e a Ásia Central. Dessa forma, a busca de Trump pela proteção da indústria americana pode acelerar a multipolaridade e enfraquecer a liderança estadunidense em regimes internacionais de comércio.
Em breve, surgirão tarifas sobre o aço (aproximadamente 25%) e o alumínio (cerca de 50%) importados pelos Estados Unidos. Nesse caso, o Brasil – um dos maiores fornecedores desses metais – será diretamente afetado. As disputas na OMC, assim como a inflação nos preços causadas pelas Trump Tariffs, certamente dispararão.

*João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia. Especialista em Negócios Internacionais. Advogado, graduado em Relações Internacionais. Professor de Negócios Internacionais da PUCPR e de Relações Internacionais da FAE. Instagram: @janyegray
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